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Dar tempo ao tempo
por J. António Andrade

«É preciso dar tempo ao tempo». Eis uma expressão pacífica e do senso comum. A ordem é esperar e deixá-lo comandar, pois ele «não espera por ninguém». E nós, não precisamos de tempo?

Proponho então um novo exercício: em vez de lhe dar-mos tempo, vamos tirar-lho e tentar dominá-lo, para nos libertarmos dele. Mas antes de passarmos para a receita, convém explicar o porquê de servir o prato.

Só provando o tempo podemos sentir o quanto é, realmente, amargo. Alguns apimentam-no e há quem lhe acrescente pitadas de sal, mas existe uma certa dificuldade em lidar com ele. Não, não são as rugas. São aqueles que vivem de e para o tempo, o tal que «não espera por ninguém», como cantou Freddie Mercury, em “Time”. 


Eles não param, seguem a alta velocidade. Não têm tempo de apreciar a paisagem nem saudar com quem se cruzam. O objectivo está delineado, a meta é só uma, tudo o resto é conversa, nada mais importa.

Os seus modos de vida não lhes dão margem de manobra. Se pararem morrem. Se lhes perguntarem se se lembram de algo vão ver à agenda. Abusam do sim ou cultivam o não só para serem do contra. São cordeirinhos com tiques de fera. Se se chateiam insultam. Não ouvem, gritam.

No emprego têm voz mas ninguém a ouve, pois só os relatórios falam. Na estrada são enlatados sem alma, com poder total. Em casa comem e dormem, sem apegos à família. Sempre de olhos postos no despertador... e no tempo. Porque amanhã é outro dia!

O stress, os problemas de carácter, a incapacidade para ouvir e compreender os outros... Aquele arreliar constante! O egoísmo, a inveja e o desprezo, ansiedade, angústia e falta de juízo. Tudo consequências do forward brutal que os dias atravessam. Que fazer?

O TAL exercício dá pelo nome de Inteligência Emocional. A primeira ordem é parar. Segue-se algo muito simples: reflectir, fazer o balanço. O importante é controlar as emoções para, tão simples, entender as acções. Só assim escapamos ao jugo robótico, ao mesmo tempo que ensaiamos soluções para evoluir em sociedade, pois só questionando chegamos lá.

Por si só, a expressão «parar é morrer» não diz nada. A verdade é que para sentir precisamos, por vezes, de parar, ou a capacidade tende a descambar. A pretensa falta de humanismo surge como uma tendência imposta pelos novos tempos, a qual urge combater.

O maior problema do tempo é que além de termos feito dele dinheiro, fizemos com que seja pouco. E neste sentido ele manda mesmo em nós.
E andamos nós nestas correrias, sem tempo para parar… nem pensar. 


J. António Andrade.

"Já ouviu dizer que atras de mim vira aquele que me fará o bem. Pois é o tempo. Muitas vezes não somos valorizados, nem corretamente entendidos mas... quando o tempo passar daí sim vão nos entender.
Por falar em incompreensão - Beethoven compunha pensando na eternidade e não para seu público. Ele sabia que suas composições eram cartas escritas à posteridade."

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